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A TEORIA DA CALCINHA FURADA










































































Esta história, que é real, aconteceu nas noites perto do Natal, quando todo mundo pensa que tá feliz e não olha pra miséria em que vive... e menos ainda pra miséria dos outros.

João Alberto era um desses que caminhava pela rua, a caminho de casa, mas sem a menor vontade de voltar pra casa. Tava tão bonito ver as luzes coloridas da cidade, que o mais gostoso mesmo era sentar num bar, tomar uns birinaites e ficar olhando as muié passá, como ele costuma dizer. Uma mais gostosa que a outra. umas acompanhadas, outras solitárias, umas vagarosas, outras apressadas. Algumas voltavam do serviço, outras iam para o serviço, porque tem gente que trabalha de noite também.

Jojoca olhava para as muié que passavam e ficava se perguntando qual delas era casada, qual não era, qual tinha namorado, qual não tinha, qual fazia isso, qual fazia aquilo. Então, no terceiro gole da manguaça - o abre alas pra cerveja -, inventou de brincar de adivinhar o que cada uma delas fazia, o que não fazia, o que tinha, o que não tinha, para onde ia, de onde vinha.

- Aquela ali vai direto pra casa. Tem cara de muié séria e...

- Como é que é? - perguntou o homem do lado de dentro do balcão.

- Nada não. - respondeu o rapaz, assustado consigo mesmo, por estar falando alto sem perceber.

Pediu mais uma branquinha e mandou vir a cerveja, depois outra e mais outra. e deve ter sido já na segunda garrafa que ele já estava entrando nas intimidades das mulheres que passavam em frente à porta do bar. Já não tentava mais adivinhar a procedência ou o destino, nem tampouco as ocupações o estado civil; já estava imaginando que aquela de calça comprida não era muito chegada em homem, que a de vestido preto era uma beata que nem dava prazer pro marido, que aquela mais apressada estava a caminho de um encontro com o namorado...

Aquela ali tá sem sutiã, aquela lá nem precisa, e aquela ainda veste calcinhas do tempo da minha avó, e aquela então... tá com a calcinha furada.

Mas não é por falta de dinheiro pra comprar calcinha, não. É desleixo, mesmo. Lembrou que já tinha reparado na sua própria mulher. Quando eram casadinhos de novo, era só calcinha de primeira, perfumadinha, rendadinha... Depois de alguns anos, a primeira que ela pega na gaveta já vai colocando.

Mas tava certo! Se não tem pra quem mostrar, se vai ficar escondido lá por debaixo da roupa, por que então se preocupar se tá furada ou rasgada?

E foi nesse momento que ele teve uma prova da fidelidade da mulher. Pensou e até deixou escapar a voz, mais uma vez:

- Se ela não liga pra calcinha que veste, então é porque não vai se encontrar com ninguém.

E teve mais que um estalo. Todos os artifícios dos quais sempre se utilizava para investigar a fidelidade da mulher podiam ser deixados de lado. Não tinha mais com que se preocupar. era só prestar atenção de manhã, na calcinha que ela vestia.

- É só olhar a calcinha. - repetiu.

- O quê? - perguntou a mulher que havia acabado de se colocar ao seu lado, para comprar não se sabe o quê.

- Num tô falando com a senhora, não moça... é que... nada... é um negócio que eu tava pensando... eu só tô tomando uma cerveja... quer tomar?

- Não... não posso... quer dizer... Por que não? - falou e perguntou a mulher.

Uns quinze minutos depois, impulsionada por dois copos de cerveja, ela já tinha contado todas as suas mágoas para o rapaz. Já tinha falado da sua falta de vontade de voltar para casa, da angústia de encontrar o marido bêbado e briguento, do quarto e cozinha fedorento em que moravam...

- Bebe mais. - ele oferecia.

- Feliz é você. - disse a mulher. - Você pode sentar nesse bar, beber, chegar em casa à hora que quiser, ficar falando sozinho...

- Eu não estava falando sozinho, eu estava pensando numa coisa e...

- Me leva para um hotel!? - pediu a mulher.

- O quê? Como? Mas... Verdade? Sério...?

- Nunca traí meu marido. - ela disse. - Mas ele merece e eu preciso... Hoje eu preciso.

- É mesmo? Será o espírito natalino ou você já está acostumada a...

- Não! Pode acreditar que é a minha primeira vez.

É por isso que está assim, toda arrumada, pensou, sem falar, o João Alberto. Já saiu de casa pensando em cornear o marido.

Mas como era homem, não quis perder a oportunidade. Levou pro primeiro hotel que viu, ali mesmo, bem próximo ao bar. Lá, naquele quartinho de pintura desbotada, cama velha, luz fraca, a mulher parecia um tanto nervosa.

- O que é? - perguntou ele. - Não vai insistir na história de que é a primeira vez que você...

- Que eu traio meu marido? É a primeira vez, sim, pode acreditar. Mas não é por isso que estou um tanto nervosa. Você se importa de apagar a luz?

- Apagar a luz? Mas o que é isso? Em que época você está vivendo mulher? Tem vergonha de se mostrar?

- Não é isso. Mas tá bom... pode deixar a luz a acesa. Só espere um pouquinho que vou me preparar.

- Se preparar...?

Ele desistiu de fazer mais perguntas e ficou olhando a mulher caminhar para o banheiro. Por um momento chegou até a temer que de lá fosse sair um cacete apontado pra ele. Mas logo a mulher voltou, e era mulher mesmo, um belo corpo por sinal, todo peladinho, com seios ainda firmes, pernas bem torneadas, um monte de pelos caprichados naturalmente, uma bundinha...

Se João Alberto ainda tinha alguma pergunta sobre o tipo de preparo que a mulher tinha ido fazer no banheiro, acabou esquecendo. Olhar aquele corpo era mais interessante. Mas só olhar também não! Tratou de se preparar ali mesmo, quer dizer, tirou sua roupa e, literalmente, correu para o abraço.

Foi então que ele teve mais uma prova a favor da sua teoria. Apesar de bem fetinho, o corpo da mulher não era bem cuidado, quer dizer, ela não tinha aquela pele devidamente tratada, hidratada, lisinha, da mesma forma que a sua própria mulher há muito já deixara de ter. Claro estava, então, que sua mulher não tinha um amante, pois se tivesse, além de se preocupar com a calcinha que vestia, também cuidaria melhor do corpo.

E foi assim, com esse ar feliz e o corpo cheio de energia que João Alberto possuiu a mulher. E pra quem dizia ser a primeira vez que dava uma puladinha de cerca, até que ela não se dava tão mal; era cheia de fogo e queria mais e mais e mais.

E como sabia trabalhar com as mãos e com a boca!

E como sabia mexer o quadril, tanto embaixo quanto em cima!

Mas a parte que ele mais gostou foi quando ela o cavalgou, de cócoras, apoiando com as pontas dos pés no colchão e com as pontas dos dedos no peito dele, agarrando, unhando.

A expressão da mulher enquanto subia e descia o corpo era algo indescritível, prazer puro, dado pelo deslizar do membro em sua vagina, pelo entra e sai, pelo some e aparece.

Se essa é a primeira vez dela – pensava João. Imagine como vai ser a segunda...

E como bom homem, ele tratou logo de questionar a mulher, dizendo que não acreditava nela.

- Você tem razão. – ela disse. – De vez em quando dou uma escapadinha. Mas tenho direito, não tenho? Eu bem queria que fosse só com ele, o meu marido, mas o que posso fazer se ele mais briga comigo do que me dá prazer. Faz tempo que não transo com ele do jeito que transei com você hoje.

- Mas por que então ficar tentando me provar que era a sua primeira vez?

- Porque vocês homens gostam assim. Vocês dão mais valor quando são os primeiros.

Caído ao lado da mulher, João Alberto pensou seriamente no que ela dizia, e concluiu que ela tinha razão. Mas pensou em outra coisa também: há quanto tempo não transava daquele jeito com a própria mulher?

A teoria do corpo bem cuidado fora colocada em dúvida.

Mas ainda faltava uma coisa que ele queria saber da mulher. Por que ela não quis se despir na frente dele?

- Você não vai rir de mim, vai?

- Rir por que? Fala!

- Você não vai rir de mim se eu disser que estou usando uma calcinha velha e toda rasgada, a primeira que peguei na gaveta, como sempre faço?

E lá se foi também, a teoria da calcinha furada...

FONTE: http://www.casadoscontos.com.br/texto/201005611

 
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